Este ano não houve almoço ou jantar romântico, sem crianças. Também não houve um almoço especial em casa. Não houve troca de prendas nem passeios a dois. Infelizmente, este ano tivemos um dia dos namorados triste, muito triste.
A noticia chegou na sexta-feira e atingiu-me como um murro no estômago. É certo que já todos estávamos a espera desde terça-feira mas mesmo assim não estávamos preparados. Talvez porque por esta altura no ano passado os médicos já quase tinham a certidão de óbito passada e o meu tio surpreendeu tudo e todos. Não só recuperou como aguentou mais um ano. Contudo desta vez foi diferente e ele acabou por falecer. Após receber a noticia percebi que a esperança é um bicho peganhento, por mais que a enxotemos e mandemos embora ela nunca desaparece totalmente. Fica sossegadinha num cantinho do nosso coração e engana-nos. Pensamos que desapareceu mas quando chegam as más noticias descobrimos que afinal nunca se foi embora. Descobri também que, ao contrário do que pensava, lidar com a morte não se torna mais fácil. Quer seja a primeira ou a milésima que enfrentemos dói da mesma maneira.
No sábado fui um pouco ao velório, depois viemos almoçar e fui surpreendida pelos mais velhos que me pediram para ir. Fiquei um pouco receosa e sem saber o que fazer. Afinal quando é a altura certa para lidar com a morte? Acabei por aceder a leva-los lá brevemente porque todos os familiares me disseram ser pior eles ficarem a matutar em como seria. O Guilherme entrou logo e quando dei por mim já estavam a destapar o meu tio porque ele queria ver. O Leonardo estava cá fora com uns primos, eu sai mais o Guilherme. Comecei a dizer que íamos embora mas o Leonardo disse-me que ainda não tinha visto. Acabei por assomar à porta do velório sem o deixar mostrei-lhe brevemente e saímos. Fiquei cheia de medo que tivessem pesadelos, fiquei com medo de ter tomado uma má decisão mas esta é uma daquelas situações em que ninguém deve saber qual é a melhor coisa a fazer. Felizmente já passaram duas noites e não tivemos problemas, vamos ver se assim continua.
No Domingo, de manhã, deixamos os meninos com a madrinha dos gémeos e fomos ao funeral. A dada altura estava a observar todos os meus tios juntos, coisa que parece que só acontece nestas alturas e apercebi-me de como estão mudados. Percebi que as imagens mentais que tenho de todos eles não correspondem à realidade actual. Lembro-me deles mais jovem, com mais vida. Lembro-me dos passeios que fazíamos, das brincadeiras. Lembro-me de como se picavam uns aos outros, de como se embebedavam em conjunto, das partidas que faziam. Hoje em dia estão mais grisalhos, mais magros, têm mais rugas e menos saúde.
Regressei do fim-de-semana um pouco em baixo não só pela morte do meu tio que tinha um cantinho muito especial no meu coração mas também porque mais uma vez me apercebi que a vida está a avançar muito rapidamente.